Macaca diagnosticada com diabetes em hospital veterinário de MG acende alerta nacional sobre alimentação de animais silvestres

Carolina Oliveira 26.02.2026
 
Caso raro confirmado após investigação clínica criteriosa acende alerta nacional sobre os impactos invisíveis da alimentação inadequada de animais silvestres

Uma macaca-prego fêmea, resgatada na Mata do Ipê, em Uberaba (MG), no dia 14 de janeiro de 2026, foi diagnosticada com diabetes mellitus após 25 dias de internação no Hospital Veterinário da Uniube (HVU). O diagnóstico é considerado raro em primatas não-humanos de vida livre no Brasil e acende um alerta em todo o país.

O animal, batizado de Chica, foi recolhido por servidores municipais em estado apático. O primeiro diagnóstico foi de broncopneumopatia (pneumonia), confirmado por radiografia torácica, com início imediato de antibioticoterapia, analgesia e suporte metabólico.

Ainda na admissão, exames laboratoriais indicaram hiperglicemia. No entanto, a equipe clínica optou por não fechar o diagnóstico de diabetes naquele momento. Segundo o médico-veterinário responsável pelo caso, Cláudio Yudi Kanayama, a decisão foi baseada em critérios técnicos amplamente descritos na literatura científica.

“O estresse agudo de captura eleva o cortisol e as catecolaminas, podendo causar hiperglicemia transitória. Além disso, agentes sedativos utilizados em procedimentos anestésicos também interferem temporariamente na glicemia. Diagnosticar diabetes exige confirmação”, explica.

Somente após 19 dias de estabilização clínica, com melhora respiratória, adaptação ao ambiente hospitalar e normalização do estado geral, foi realizada nova bateria de exames. A dosagem de hemoglobina glicada (HbA1c), marcador de hiperglicemia crônica, confirmou o diagnóstico definitivo de diabetes mellitus.

Durante a internação, a equipe implementou protocolo de manejo específico, incluindo dieta com redução de carboidratos simples e aumento de vegetais frescos. Ainda assim, o prognóstico é permanente: a macaca não poderá retornar à vida livre.

“O caso de Chica demonstra que, uma vez instalada, a diabetes mellitus em primatas exige cuidado permanente, especializado e custoso. O animal necessitará de monitorização contínua, medicamentos diários, dieta rigorosamente controlada e acesso a laboratório para exames periódicos, algo que a natureza não pode oferecer”, destaca o veterinário.

De acordo com estudos internacionais publicados na revista Zoo Biology, a diabetes em primatas é mais frequentemente registrada em animais de cativeiro: 28% das instituições zoológicas norte-americanas relataram pelo menos um caso ativo. Em vida livre, porém, os registros são raros, o que torna o episódio ainda mais significativo.

Segundo a equipe técnica, a causa mais provável está associada à alimentação inadequada oferecida por frequentadores da área verde.

 
“A macaca estava recebendo alimentos inadequados, principalmente carboidratos simples, como pão de queijo, bolachas, entre outros, oferecidos por pessoas que visitavam a Mata do Ipê. Isso resultou em uma condição metabólica grave que comprometeu permanentemente sua saúde”, comenta o especialista.

Especialistas alertam que alimentar animais silvestres pode provocar distúrbios metabólicos, como diabetes e obesidade; dependência alimentar e perda da capacidade de forrageamento; alterações comportamentais e aumento de agressividade; maior risco de transmissão de zoonoses; além de desequilíbrio ecológico.

Recomenda-se que a população não alimente animais silvestres em parques ou áreas de preservação, eduque crianças sobre a importância de respeitar a fauna em seu habitat natural, apoie políticas públicas de conservação e procure instituições especializadas ou a Polícia Ambiental ao encontrar um animal em situação de risco.

Agora, Chica aguarda encaminhamento ao Instituto Estadual de Florestas (IEF), que definirá sua destinação para uma instituição habilitada ao manejo permanente. Para os profissionais envolvidos, o caso ultrapassa o episódio clínico individual.

“Queremos que essa história sirva como alerta nacional. Alimentar um animal silvestre pode parecer um gesto de carinho, mas pode condená-lo a uma doença crônica irreversível”, conclui o veterinário.

A Secretaria de Meio Ambiente da Prefeitura de Uberaba, por meio do secretário Edno Cesar da Silveira, informou que, por intermédio da Superintendência de Bem-Estar Animal, acompanha o caso da macaca Chica desde o seu encaminhamento ao Hospital Veterinário da Uniube (HVU), realizado pelo médico-veterinário da própria Superintendência.

“Expressamos nosso profundo agradecimento à instituição pela excelência técnica e pela dedicação no tratamento da Chica. Agora, nosso compromisso é apoiar integralmente o HVU e o Instituto Estadual de Florestas (IEF) na busca por uma instituição habilitada que possa oferecer o manejo permanente e a qualidade de vida que ela necessita”.

Carolina Oliveira | Assessoria Universidade do Agro

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